Chegou o inverno

Aqui na casa dos meus avôs o inverno chega quando se liga a Lareira. O que é interessante, porque é o segundo inverno que meu avô não vai ficar agachado ali tentando fazer a lenha pegar fogo. E esse post é mais um tributo a ele do que qualquer outra coisa.

Dessa vez a responsabilidade foi minha, o que faz sentido porque três filhos dele estão as voltas tentando acertar a papelada de um pedaço de terra que ele nos deixou de herança. Apesar das boas memórias que tenho lá, não é muito mais que um terreno cheio de natureza (leia-se: mato). Acho que o Avô gostava assim, com bem pouca alteração humana; lembro da primeira vez que ele me levou pra ver um pilão que existe num espaço entre o rio e um bambuzal. Era o achado dele, um pedaço de madeira velho e cheio de limo provando que ali existiu alguma coisa algum dia; mas a natureza reivindicou como seu.

Mas voltemos a Lareira, ao inverno, e a Poltrona. A poltrona que está vazia, é intrigante que ninguém ouse reivindicar ela. As vezes eu sento ali porque a tomada fica mais perto, mas geralmente sento de frente pra ela; talvez por costume. Costume de chegar aqui, e ouvir histórias. E não tem mais histórias. Histórias de como ele vendia a sobremesa que não gostava no colégio interno (isso lá por 1930), como era na fazendo sem eletricidade (1940), ou reclamando de algum medico que deu remédios demais. Avôs tem disso de gostar de contar histórias, e o papel dos netos é parar pra escutar; talvez era só o meu que era bom de contar histórias e eu bom de ouvir.

Fugi da Lareira de novo. Alguém me explicou que alguma das tias comprou de uma irmã de alguém e surgiu esse pedaço de metal na nossa vida. O que eu chamo de Lareira, para esclarecimentos, é uma Salamandra Luís XV de ferro fundido; mas todo mundo chama de Lareira, e vou seguir chamando ela assim.

Enfim, o inverno chegou. A Lareira vai ficar acessa aquecendo a casa. E vamos nos acostumando em não ter o avô pra acender ela, mas acho que estamos fazendo um bom trabalho em levar o legado dele.

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Max

Responsável por essa bagaça, aquele que teve a ideia de que ter um blog seria legal. Escreve sobre o que vem na cabeça, as vezes sobre o que sobressai nas redes sociais também.