Futebol e Game Design

Futebol é, sem dúvida, o esporte mais popular do mundo. Os fãs desse esporte tendem a ser fortemente passionais quanto ao assunto, principalmente se o time do coração entra na conversa.

Contudo, a pergunta que fica é a razão do association football ser tão popular assim. Acredito que seja possível de responder essa pergunta em uma análise do jogo com uma visão de Design de Jogos, e o que é criado com ele; a experiência.

Regras

O primeiro fator a se observar para determinar a popularidade do futebol é a simplicidade das suas regras. Crianças são capazes de assistir 5 minutos de um jogo de futebol e entender suas regras básicas: os jogadores tem que colocar a bola dentro do gol, não podem pegar com a mão, quem fizer mais gols dentro do tempo determinado ganha. Essa simplicidade de regras torna o jogo massivamente acessível, independentemente de classe ou educação. Claro, existem também as minúncias de delimitação de campo e reposição de bola, a famigerada Posição de Impedimento (clássico caso de regra criada depois das regras originais para arrumar uma posição de abuso dos jogadores), distância mínima de jogadores para cobrança de falta, etc., mas os espectadores não precisam conhecer todos esses pormenores para entenderem que, quando a bola balança a rede, é gol, é festa.

A Experiência

A vasta maioria dos jogos é criada com um objetivo: criar uma experiência positiva. Contudo, quase sempre, o foco dessa experiência é o jogador, a pessoa que participa e influencia diretamente o jogo. No futebol, claro, isto não é diferente. Porém, por ser um esporte de times, praticado em uma área grande de jogo, a visualização como espectador é potencializada, tornando esta, também, uma atividade lúdica.

O futebol cria uma experiência lúdica com o espectador aproveitando-se da capacidade humana de empatia, fazendo que o torcedor torne-se emocionalmente envolvido com o resultado do jogo. Há um lado que vence, há um lado que perde. Vencer é difícil, é uma batalha; a vitória é uma glória, a derrota, uma desgraça.

Devido às suas regras, o futebol é um jogo que cria picos de excitação no espectador. Quando a bola se encontra no meio do campo e os jogadores estão se preparando para uma jogada, existe pouca excitação. Quando a bola encontra-se perto da área e os jogadores estão tentando encontrar um espaço na defesa para serem capazes de alcançar o objetivo, a tensão cresce entre jogadores e torcedores, pela possibilidade de marcar um ponto. Quando tal ponto é marcado ocorre um veloz alívio desta tensão que transmuta-se em alegria, causando uma reação explosiva.

Emergência

Este é um termo utilizado no game design que não significa aquilo que parece que significa. Enquanto é coloquialmente usado para indicar situações de perigo ou tensão, aqui é um termo que indica táticas e estratégias que emergem das regras.

Muito se fala em termos de futebol sobre o atacante de um time, ou a formação 5-3-2, ou linha de defesa entre outros termos taticos. Nenhum desses termos está presente nas regras do futebol. No manual não está escrito que um time precisa ter um atacante, ou um lateral, ou um meio campo, tampouco qual a função destes jogadores no campo. Também não está escrito as formações táticas possíveis para um time. A única posição declara no manual é a do goleiro, porque ele é um jogador que pode quebrar algumas regras do jogo.

Tudo isso, sobre posições, táticas, estratégias, formações, são coisas que, as pessoas, após muito jogarem, assistirem e analisarem jogos de futebol perceberam que algumas atitudes em campo traziam resultados melhores que outros. Que criar uma formação e padrão de jogo era melhor que deixar que o caos reinasse. Percebe-se, então, que o jogo tem um alto valor de emergência, criando, assim, diferentes táticas e estratégias, de modo que jogo algum seja igual a outro e mantenha-se sempre excitante e imprevisível.

A Comunidade

Em seu livro “Arte de Game Design” Jesse Schell comenta que, para um jogo competitivo ter sucesso, é necessário que uma comunidade passional se forme em volta desse jogo. Pessoas que invistam seu tempo e dinheiro para que o jogo seja jogado. Enquanto vemos isso em escalas menores no mundo dos jogos analógicos com Magic: The Gathering; no mundo dos e-sports com League of Legends; isso também é verdade, embora em uma escala muito maior, no futebol.

Tudo neste jogo facilita a criação de uma forte comunidade em volta dele. Regras simples, experiência lúdica, facilidade de expectação, identificação pessoal com times, emergência de táticas complexas, entre outros fatores não citados. Com uma forte comunidade, o jogo se torna cada vez mais forte e presente, o que cresce ainda mais a comunidade. No Brasil, como já demonstrou John Oliver em seu programa semanal Last Week Tonight, o futebol já é uma religião.

Continuem sempre pensando, criando e jogando fora da caixa.

Published by

Guilherme Landgraf

Protótipo de Game Designer, nerd de tabuleiros, geek de videogames, enciclopédia móvel de conhecimento inútil e designer gráfico.
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