Cristianismo e a Comunidade LGBTQ+

Eu prometi pra mim mesmo deixar de fazer textos falando de LGBTQ+. Mas como eu tenho mania de prometer coisas pra mim mesmo e não cumprir, aqui to eu falando sobre LGBTQ+! Disclaimer rápido: não quero que ninguém se ofenda, continue lendo o texto por sua própria conta e risco! E esse texto tem como publico alvo unicamente pessoas que acreditam na Bíblia, se você não acredita na inerência bíblica é possível que esse texto não faça sentido algum; leia por sua conta e risco. Esse texto foi escrito na semana 5-11 de Julho, sem intenções de ser publicado; como pessoas ainda não entenderam alguns pontos que defendo aqui decidi plubica-lo.

Sexta-feira foi um dia muito lindo pra mim. Uma amiga saiu do armário pra mim, e ela fez isso porque me ama, se sente amada por mim, e me considera uma pessoa próxima a ela. Eu sempre falei que eu deixo claro pros meus amigos que eu amo eles independente deles, e que a minha religião não concorda com seus atos. E pra deixar bem claro eu falei isso pra ela. Ela entende meu ponto de vista religioso, e eu entendo ela como pessoa independente de seus atos. Discordamos um do outro; mas seguimos nosso relacionamento de amizade com muita fofura e muito amor. Sábado, eu fiquei triste. Porque uma outra amiga, essa cristã e muito envolvida com a igreja local; veio falar comigo que estava muito triste pela reação de outros cristãos ao descobrir que ela apoia e ficou feliz com a legalização do casamento igualitário nos Estados Unidos. Fiquei triste em ouvi-a. Daí nasceu esse texto, ou a vontade de escrever esse texto. Vou dividir esse texto me preocupando com três pontos: O que a Bíblia fala sobre Homossexualidade (textos que claramente citam atos de homossexualidade; buscando dar uma ênfase na validade argumentativa dos mesmos); Antigo Testamento e Novo Testamento (por que ignoramos tantas leis do Velho Testamento, e por que obedecemos regras que não estão escritas na Bíblia achando que estamos sendo bíblicos?); Cristianismo e Direitos Civis (Diferenciação entre um politico que segue princípios cristãos e um cristão politico, e o que são esses princípios cristãos?). Mais um disclaimer: não sou teólogo, e posso estar errado em tudo que escrevo; mas se tu ler o texto até o final, por favor me mostre quais argumentos tu acha que eu to errado, e continuemos essa discussão! É importante dizer que para falarmos de Bíblia eu parto da hermenêutica dispensional (interpretação literal-gramatical-historica do texto ), isto é, parto da interpretação mais simples e literal do texto, exceto quando os textos relacionados demonstram uma vontade clara do autor de alegorias (ou seja, não creio numa interpretação tão literal de textos poéticos como Jó, Salmos e alguns textos dentro de outros livros).

O que a Bíblia fala sobre Homossexualidade?

Pra começar esse ponto; vou tentar resgatar alguns textos literais. Explicando o pouco que sei do contexto, e qual a interpretação dada aquele texto ou por que creio na validade argumentativa dele ou não.

Sodoma e Gomorra (Gn 18-19)

 

Hoje usamos sodomia como sinônimo de atos de homossexualidade, orgias, bacanais. Deus fala que vai destruir as cidades “porquanto o seu pecado se tem agravado muito” (Gn. 18:20). Ou seja, os homens e mulheres da cidade cometiam pecados em grande escala; Deus não define qual era o tipo de pecado. A tradição cristã, baseada no fato que os homens da cidade queriam ter relações com os anjos que foram visitar Ló (Gn. 19:5) e ele continuar a conversa como se fosse algo normal os homens da cidade terem aquele tipo de atitude, acredita que sejam pecados de cunho sexual. Quando falo de tradição cristã aqui uso de duas coisas: minha experiência pessoal com a igreja, e com o fato de a interpretação ser facilmente achada online; sei que são bases péssimas, mas é o que posso fazer. Também existe o texto de Judas 1:7 que fala sobre o pecado sexual de Sodoma e Gomorra, mas esse texto também aponta para que foi a forma como os moradores dessas cidades se portaram para com os anjos, não coloca que esse foi o pecado que causou a destruição das mesmas.
Apresentado esse contexto, a possibilidade das cidades serem condenadas por seu pecado de atos de homossexualidade, e as suposições que envolvem tal texto não creio que seja uma passagem valida pra argumentação sobre homosexualidade.

Pentateuco (Lv 18:22, Lv 20:13, Dt 22:5, Dt 23:17-18)

Creio ter juntado todas as vezes que a Lei de Moises fala de atos de homossexualidade e do fato de eles serem abominação ao Senhor. O problema aqui, como vou tentar colocar no próximo ponto (A.T. versus N.T.) é que como cristãos ignoramos muitas partes das Leis do Antigo Testamento. E escolher algumas para seguir, principalmente quando elas são contra o outro, me parece de uma covardia imensa. Existem outros textos no Velho Testamento que se refiram a atos de homossexualidade; mas são em sua maioria citações dos textos aqui apresentados.

Paulo (Rm 1:26-28, Rm 1:31-32, I Co 6:9-10, I Tm 1:10, II Tm 3:3)

Basicamente Paulo fala que quem comete atos de homossexualidade vai pro inferno. E para ele os atos de homossexualidade é um pecado consequência de negação de Deus. “E, como não querem saber do verdadeiro conhecimento a respeito de Deus, ele entregou os seres humanos aos seus maus pensamentos, de modo que eles fazem o que não devem” (Rm. 1:28). Esses são os textos que considerarei validos para a argumentação.

Quando ele pregou aos atenienses, começa no que eu interpreto como elogio: “— Atenienses! Vejo que em todas as coisas vocês são muito religiosos.”(At. 17:22). Ou seja, mesmo Paulo que descreve homossexualidade como algo repugnante aos olhos de Deus, se preocupa em não ser intolerante com idolatras; mas procura o ponto de contato com o pensamento desses mesmos idolatras. Ele mesmo descreve sua ‘técnica de evangelização’ como “Assim eu me torno tudo para todos a fim de poder, de qualquer maneira possível, salvar alguns.” (I Co. 9:22) e se preocupa em dizer aos romanos que “[n]o que depender de vocês, façam todo o possível para viver em paz com todas as pessoas” (Rm. 12:18).
Então diremos que Paulo foi um hipócrita? De forma nenhuma! Eu interpreto todas essas posições dele como a forma de colocar que as leis do Reino existem, mas para que as leis tenham o status legislativo a pessoa primeiro precisa estar no Reino. Ou seja, não existe lógica em tentar impor leis de um Reino para pessoas que não se submetem a esse Reino em primeiro lugar.

Portanto atos de homossexualidade são pecados, sim. Mas o conceito de pecado só existe para aquele que escolhe conscientemente entender somente Cristo como seu Senhor e Salvador de forma imerecida e de graça sem interferência alguma de suas próprias obras através do entendimento de que apenas a Escritura é a revelação divina, e tudo isso com o objetivo de dar glorias somente a Deus (resumindo as Cinco Solas, não foi a minha melhor frase com as cinco, mas esqueci as outras frases). Qualquer pessoa que não preencha esses pre-requisitos não precisa se submeter as “Leis do Cristianismo”; e impor essas leis de forma opressora não só carece de lógica, como faz a pessoa que está impondo-as pecar contra o mandamento de Cristo que nós direciona a amar ”o seu próximo como a si mesmo” (Mt. 22:39; Mc.12:31; Gl. 5:14).

Antigo Testamento versus Novo Testamento

Qualquer pessoa que entenda o mínimo de cristianismo percebe uma discrepância muito grande no nosso discurso quando falamos da importância bíblica e da forma como desobedecemos o Antigo Testamento.

Isso é algo muito intrínseco ao cristianismo, mas vendo a quantidade de amigos que não entenderam vou tentar explicar. Paulo gasta 3 capítulos dos 16 de Romanos explicando a diferença entre Lei e Graça e como a Graça só pode ser entendida através da Lei embora a Graça seja maior que a Lei (interpreto a Lei referida como sendo a Lei de Moises). Ele mesmo exorta Pedro (Gl. 2:11-21) sobre a não necessidade do cumprimento total da Lei de Moises, principalmente após o próprio Pedro ter sido ordenado por Deus a desobedecer a Lei (At. 10:9-23). Desse ponto em diante, na igreja primitiva, Paulo vai ensinar que o cristianismo é uma religião baseada mais no amor ao outro do que em leis estritas. Vide a forma como ele fala sobre desobedecer a Lei a fim de ganhar os sem Lei (I Co. 9:21) e como ele se coloca em relação aos fracos e fortes na fé e que o amor ao outro deve ser o definidor das nossas ações (Rm. 14). Partindo desses pontos concluo que o Antigo Testamento revela quem Deus é, qual a formação histórica do povo judeu, mas creio que qualquer Lei que me faça agir com ódio ao próximo (partindo do pressuposto que ódio é a ausência de amor) ou não deve ser obedecida, ou a minha interpretação desse texto deve ser revista. Aqui também se aplica a questão da forma de se expressar ao outro mais de o que se expressa ao outro. Voltando ao exemplo do início eu poderia ser arrogante e falar de forma ríspida o quanto a atitude de minha amiga é errada, mas seria uma mensagem vazia de amor; colocar que eu a amo como pessoa e que dentro da minha escolha religiosa as suas atitudes são erradas não só demonstra que eu me a amo, mas demonstra que entendo que as “Leis do Cristianismo” não se aplicam a ela, simplesmente pelo fato de que ela não é cristã.

Cristianismo e Direitos Civis

Partindo dos pressupostos anteriores, não consigo ver na Bíblia textos que nos indiquem que a vontade de Deus seja de a Bíblia aplicada como Lei para todos os cidadãos de um país; ou ainda que políticos lutem pela aplicação dos “princípios da cristandade” como forma de legislar. Eu entendo isso como o “cristão politico”, pessoas que lutam com unhas e dentes para que o entendido como correto pela cristandade seja aplicada como Lei. O que numa visão paulina seria voltar ao tempo da Lei, desprezando a Graça. O politico que segue princípios cristãos está mais preocupado em aplicar esses princípios cristãos a sociedade, expondo seu entendimento sobre sociedade e como torna-la um espaço mais agradável; sem que necessariamente se fale em cristandade. Princípios esses que melhoram a qualidade de vida do outro, e torna o relacionamento com esse outro mais profundo; e quem sabe na exposição desse outro aos princípios cristãos e a uma vida genuinamente cristã esse outro seja alcançado pela graça. E o nosso objetivo de toda gloria ser dada a Deus seja alcançado.

Mas como esses “princípios cristãos” se materializam em coisas praticas? Acabar com a fome e pobreza; educação básica de qualidade para todos; igualdade entre os sexos e valorização da mulher; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde das gestantes; combater a aids, a malária e outras doenças; qualidade de vida e respeito ao meio ambiente; todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento; respeito a outras religiões e aos seus praticantes; apoio para que nenhuma pessoa sofra violência pela forma como expressa a sua individualidade; entre vários outros.

Concluo então, que dentro do entendimento e pressupostos levantados; como cristão a minha responsabilidade é viver uma vida que exponha ao outro a graça e o amor que não são provenientes de mim mesmo. Ao mesmo tempo que junto a esse outro eu celebre suas vitorias, embora algumas possam ser consideradas dissonantes com os meus valores e crenças; não porque apoie os atos do outro mas porque amo o outro e me alegro com sua alegria. Assim como estarei lá para chorar com ele, quando ele se entristecer. Oro para que isso, e não a imposição de um estilo de vida, ajude na expansão do Reino. E que essa minha atitude e estilo de vida façam com que a vontade de Deus seja feita na terra como nos céus.

Como sempre, se discordar do que eu escrevi por favor use o espaço dos comentários para trocarmos ideias!

 

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Adendo numero 1: Pessoas que se reconhecem como homossexuais são pessoas que sentem atração sexual por pessoas do mesmo sexo, não necessariamente pessoas que se envolvam em atos de homossexualidade, portanto não estão inerentemente em atos de promiscuidade ou de pecado.

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Max

Responsável por essa bagaça, aquele que teve a ideia de que ter um blog seria legal. Escreve sobre o que vem na cabeça, as vezes sobre o que sobressai nas redes sociais também.