Viver em Comunidade?

Eu nasci no que hoje reconheço como uma “comunidade alternativa”. Meus pais são missionários evangélicos desde antes de se casarem. Se conheceram dentro da missão. Eu nasci dois anos depois do casamento deles, e com poucos dias fui morar na comunidade com eles; ficou estranho essa frase, eu sou filho biológico, mas minha mãe e eu moramos uns dias na casa de meus avós paternos antes de nos mudarmos pra missão (era inverno curitibano, então entendo a decisão deles). Sempre me perguntam como foi crescer dentro da missão e vou tentar explica aqui.

Eu não lembro muito dos meus primeiros anos em Curitiba, mas não impede de que eu saiba de qual era a nossa realidade ali; porque sempre me contaram muitas historias desse tempo. Prem falemos do que eu lembro, pra não causar problemas pra ninguém. Quando eu tinha pouco mais de 2 anos, com minha mãe estava gravida da minha irmã, nos mudamos de Curitiba para Contagem na Grande BH, e a realidade lá meio que descreve o que era viver em comunidade (ao menos pra mim). O terreno que morávamos era muito grande, mesmo. Lembro que pra mim brincar na rua não fazia sentido, porque eu brincava no “quintal de casa”. A minha memória me diz (e ela pode estar muito errada) que tinham umas 20 crianças da minha idade morando naquela comunidade (sim, no mesmo terreno), então ficar fora de casa brincando com esses amigos de idade parecida e não ver meus pais por quase um dia não era nada muito estranho. Aniversario, por exemplo, não tinha convite; chegava o dia eu ia de casa em casa chamando meus amiguinhos pra irem na minha casa (ao menos é assim que eu lembro). Ou quando meus pais precisavam sair “pra cidade” sempre tinha algum “tio” (pais de algum amigo ou algum voluntário da comunidade) que ficava “cuidando” da minha irmã e eu. Acho que isso foi algo muito importante pra que eu conseguisse aprender a entender que existem pessoas diferentes de mim. O curso pra se começar na missão dura 6 meses (alem de outras cursos ministrados naquela base operacional); então a cada 6 meses mudava quase o quadro todo de pessoas ao meu redor. E como eu morava na principal base do Brasil, o numero de pessoas nessa rotatividade era muito grande, não eram só brasileiros mas lembro de australianos, africanos (desculpe não lembro bem quais países da Africa), norte-americanos, argentinos, entre vários outros passarem lá pela comunidade. Então, quando nós voltamos dos Estados Unidos (moramos aqui 6 meses em 1998) não foi difícil continuar a praticar a língua inglesa.

Como na comunidade se faz necessário manter o espaço físico e funciona 100% com base em voluntariado existe uma cozinha comunitária, e todas as refeições são feitas ali. Independente se a refeição será comida no refeitório comunitário, ou em casa. Porém sempre comemos a comida feita por outros voluntários nessa cozinha. Claro, meus pais também ajudavam na manutenção da base; eu e minha irmã ajudamos também. Então, eu já cortei grama, pintei,  ajudei a carregar pedaços de arvores caídas, limpei banheiros, varri salões gigantes, lavei a louça das refeições, ajudei a cozinhar para uma multidão, ajudei a arrumar a internet, consertei computadores, entre vários outros “trabalhos” dentro da missão. Ah, meus pais sempre trabalharam no mesmo terreno que morávamos. Então visitar meu pai no trabalho era caminhar uns 50 metros da minha casa, e era comum chegar em casa do colégio e minha mãe estar tendo uma sessão de “conversa” (minha mãe é psicóloga pela Universidade Católica do Uruguai; mas não pode exercer a “profissão” no Brasil; então não posso chamar de “terapia”, mas era quase a mesma coisa).

Em suma, eu cresci em um grande terreno com pelo menos uns 50 “tios” (solteiros, casados, divorciados, etc) , fazendo minhas refeições com eles, ajudando a manter o espaço em que moramos. Sempre conheci meus vizinhos, não só por nome, mas sabia até quem era quem com base no barulho dos passos (morei quase 10 anos em uma casa de assoalho antigo, e qualquer passo ali faz MUITO barulho). Não sei o que é morar em apartamento, ou em casa; mas já dormi em sofá, carro, barraca, cama, colchão no chão, saco de dormir (só um saco de dormir entre eu e o chão), boia que imita colchão no chão, colchão de ar, tapete, etc.

E pra quem pensa que comunidades assim precisam ser na “roça”; em 2001 nos mudamos para Curitiba, onde vivemos em uma base com terreno bastante menor (mas ainda assim grande). Moramos (eu ainda considerado aquele espaço meu lar) a menos de 10 km do centro da cidade; e no meu “quintal” tem campo de futebol suíço, uma escola primaria, salas de aula, dormitório para mais de 100 pessoas, um espaço gramado MUITO GRANDE, etc. Existem reuniões semanais, onde todos da comunidade e pessoas fora da comunidade são bem vindos, todas quintas a noite; é impressionante a heterogeneidade do grupo de pessoas. Ali sim somos um “melting pot”; com objetivo de “conhecer a Deus e fazer-lo conhecido”. E essas reuniões foram a minha primeira “rede social”.

 

Sou muito grato a meus pais por essas experiências, e porque no meio de tudo isso eles sempre se preocuparam em criar dois filhos da melhor forma possível. Eles erraram por vezes, acertaram por outras; mas a sinceridade de alguém querendo fazer o certo é mais importante que erros ou acertos.

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Max

Responsável por essa bagaça, aquele que teve a ideia de que ter um blog seria legal. Escreve sobre o que vem na cabeça, as vezes sobre o que sobressai nas redes sociais também.